Lula - Sortudo ou Moderado?
Depois de perder as eleições para Collor e duas vezes para FHC, Lula se elegeu.
O PT tinha sido ácido nas críticas à implantação do Plano Real. Mas, seria justo recriminar? O país vinha bailando a Dança da Morte desde o Cruzado I, passando um caos econômico com inúmeros outros planos heterodoxos, medidas extremas, desindexação em meio a processos de intensa inflação... E nada parecia capaz de combater a inflação. A imprensa costumava representar a inflação como um dragão, sempre vitorioso sobre quaisquer baluartes com suas análises macroeconômicas que pareciam mecânica quântica.
Nos anos 80 havia um excelente (eu achava, ué!) programa e TV em que Henry Maksoud falava sobre a conjuntura econômica. E ele conseguia levar gente do primeiro escalão da equipe econômica do governo. Era divertidíssimo vê-lo detonando o entrevistado logo depois de perguntar "o que é inflação?". A resposta mais comum era "é um processo generalizado de aumento de preços".
Henry olhava para a câmera e sorria ironicamente. Dizia algo como "Tá vendo? Eu vivo alertando! Esse pessoal não sabe o que é inflação!".
Logo após brindava o telespectador com a reiterada explanação sobre a causa do aumento de preços: o aumento da base monetária sem aumento correspondente na produção de bens e serviços.
Ele dizia "O pessoal pinta papel e chama de dinheiro.".
O entrevistado discordava mas, a rigor, nenhum deles conseguiu desconstituir o conceito que Henry Maksoud explanava.
Então, não era nada incomum que o PT, essencialmente um partido de oposição, tenha atirado torpedos durante a fase de instalação do Real.
Mas o plano funcionou. E bem.
Mesmo com a decaída verificada no segundo mandato de FHC, mais os escândalos das privatizações, o Brasil estava melhor que antes.
Com Lula no poder muita gente imaginava que o "temível" PT iria promover reformas de base e tributar as grandes fortunas, coisas assim.
Ora, mas, qual o que?
Ocorreu uma super-mega-giga conveniente circunstância externa: a China acelerava enormemente seu crescimento econômico ao absorver a produção de vários bens e insumos que as potências econômicas preferiram terceirizar. Com isso, a China passou a comprar muita matéria prima. O mercado de commodities cresceu exponencialmente. E o Brasil se beneficiou muito com esse quadro.
Com a economia organizada, a venda de commodities para a China manteve o país em ritmo de crescimento.
A grande ironia: quando o PT chegou ao poder não havia necessidade premente de reformas ou de enfrentamento dos interesses da classe empresarial nem dos banqueiros.
O primeiro mandato de Lula projetou-o como um governante que tirou milhões da miséria.
Mas... A classe política não é nem um pouco ingênua.
Governando assim ou assado, Lula teve que lidar com o Congresso. Nascia aí o termo que se tornou uma heresia: governabilidade.
Veio a lume o regime do "mensalão", uma mesada às variadas lideranças partidárias para a aprovação das medidas do Executivo.
Muito dinheiro foi distribuído.
E a máquina estabelecida entre o governo e os políticos, tanto os do PT como de outras legendas, o chamado "sistema", passou a exigir mais e mais "recursos". Daí as investigações iniciais do escândalo do Banestado terem aportado a desvios e mais desvios de bilhões em operações envolvendo a Petrobrás: o "petrolão".
Mas Lula se manteve com credibilidade suficiente para se reeleger.
Com a diminuição do aquecidíssimo mercado de commodities uma crise foi se estabelecendo. Mas a coisa toda continuou funcionando.
Tudo estava bem pior no final do segundo mandato, mas Lula conseguiu eleger a nem um pouco carismática Dilma Roussef.
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